segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Elogio ao óbvio

Propaganda enganosa do falso ambientalismo
Xico Graziano

Tenho lido, intrigado, algumas notícias insólitas abordando assuntos do campo. Aqui mesmo, no Estadão, deparei-me dias atrás com a seguinte manchete: Cidades geram apenas 2,5% do lixo do planeta. Vai sobrar para a agricultura, pensei.
Não deu outra. Segundo a matéria, a pecuária lidera a geração de resíduos sólidos no mundo, com 39% do volume total. Somando-se ao ramo vegetal, 58% do lixo do planeta estaria sendo gerado na zona rural. Será mesmo? Da atividade mineradora viriam outros 38% dos resíduos, compostos estes por pedras e escórias, naturalmente. Conclusão: cabe às cidades mínima parcela do lixo mundial. Dá para acreditar nisso?
Impossível. Obviamente algum equívoco permeia a notícia. E é fácil perceber. O estudo citado na matéria considerou 'lixo' o esterco dos animais, colocando os excrementos que fertilizam o pasto na mesma caçamba da imundície coletada nas ruas. Francamente falando, equiparar a sujeira urbana com os dejetos animais configura crasso engano. Um lixo de informação.
É óbvio ululante que o drama dos resíduos sólidos pertence à moderna civilização industrializada, assentada no consumismo desenfreado estimulado pelo marketing. Montanhas de lixo se acumulam, ou se enterram e se queimam alhures, constituídas por recipientes e produtos variados, plásticos e latas, restos do desperdício alimentar e social. Um drama urbano.
Os detritos empesteiam, claro, algumas áreas rurais. Mas, para surpresa de muitos, o Brasil é campeão mundial na reciclagem das embalagens de produtos agrotóxicos. A ação de logística reversa, coordenada pelo Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (inpEV), envolve 84 empresas fabricantes, aliando cooperativas, revendedores e produtores rurais capazes de retirar 95% das invólucros venenosos distribuídos na roça. Atitude exemplar.
É bem verdade que nos modernos confinamentos de gado o acúmulo de animais em pequena área provoca impactos ambientais semelhantes aos dejetos domésticos do esgoto. Disposição correta e tratamento se exigem para evitar a poluição de mananciais. Definitivamente, porém, esterco animal e restos orgânicos das colheitas não pertencem à mesma balança do lixo citadino.
Dizia-se antigamente que a 'mentira tem perna curta'. Hoje em dia, com a facilidade da comunicação via internet, certas balelas espicham suas pernas, espraiando-se incontrolavelmente nos circuitos das redes sociais. Uma informação deformada, se curiosa, acaba sendo um perigo.
Peguem novo exemplo. Os vegetarianos sempre combateram o consumo de carne, associando-o, por motivos religiosos ou humanitários, à desumanidade da caça ou do abate dos animais. Mais recentemente, porém, seus radicais descobriram uma maneira inteligente de depreciar a carne, a bovina especialmente, associando-a ao aquecimento global. Comer carne virou, para eles, problema ecológico.
Acontece que os animais ruminantes liberam gases no processo da fermentação em seu estômago. Com poder de efeito estufa maior que o dióxido de carbono (CO2), o metano advindo da eructação bovina preocupa há tempos a zootecnia. Alteração nas dietas animais, entre pasto e rações, bem como aditivos configuram técnicas pesquisadas para interferir na digestão entérica, reduzindo o arroto dos bichos.
Por outro lado, cientistas do clima crescentemente desconfiam que o efeito estufa causado pelo metano seja bem menor do que se convencionou em laboratórios. Acontece que na realidade da atmosfera os raios infravermelhos provocam um fenômeno de 'radiação de corpo negro', que reduz o potencial de aquecimento do metano, caindo de 23 para 4 a 5 vezes o equivalente em CO2. A queda é enorme.
Os agrônomos teimam em não aceitar que as emissões de carbono liberadas no processo orgânico sejam comparadas às oriundas do petróleo. Esta via é fóssil e a outra, renovável. Mais ainda, a ruminação faz parte do ciclo da vida planetária: a pastagem que alimenta o gado cresce realizando a fotossíntese, absorvendo gás carbônico, liberado posteriormente em forma de metano.
Quando se considera esse fluxo de carbono, a conta ambiental da pecuária quase zera. Por essa razão a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) reviu suas posições e lançou um programa - Mitigation of Climate Change in Agriculture (Micca) - defendendo novo enfoque no estudo das alterações climáticas na agricultura. A Embrapa segue esse caminho.
O assunto, como se percebe, é complexo. Nada disso, porém, interessa aos ativistas vegetarianos, como Pankaj Goswami, que publicou no site GreenDiary (2006) um cálculo simplista comparando a emissão de carbono oriunda dos rebanhos bovinos com a advinda dos veículos automotores. E concluiu algo como 'as vacas do mundo poluem mais que os automóveis'. Uma afronta ao óbvio.
O risco da falácia espalha-se na internet. Mecanismos de busca, juntamente com o famigerado copia-e-cola, permitem que as pessoas se manifestem sobre o que pouco entendem. Leigas, misturam argumentos, trocam o raciocínio, confundem laranja com banana, escrevem bobagens sem a menor noção. Repetem argumentos que, em muitos casos, são meros slogans, para não dizer boas asneiras. Gente séria entra na roubada.
Não tem lógica, em nome da ecologia, amaldiçoar a boiada e oferecer salvo-conduto aos automóveis. Também não faz sentido afirmar que no campo se gera mais lixo que na cidade, ou inventar que se gasta mais água para produzir um bife do que para fabricar um carro. Tais comparações são insensatas.
Na roça, quando o caboclo escuta uma coisa inusitada, ele fica sestroso, desconfiado. Seu primeiro impulso, algo sábio, é raciocinar com a simplicidade do óbvio, um bom conselheiro da verdade.
OESP, 18 de outubro de 2011.

publicado por D. Bertrand, blog Paz no Campo

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Porquê?

Por Pilar Rahola

Quem é Pilar Rahola?

Pilar Rahola é um político espanhol, jornalista e activista e membro da esquerda espanhola. Os seus artigos são publicados em Espanha e em alguns dos mais importantes jornais da América Latina.
"Porque não vemos manifestações contra as ditaduras islâmicas em Londres, Paris, Barcelona?
Ou manifestações contra a ditadura birmanesa?
Porque não há manifestações contra a escravidão de milhões de mulheres que vivem sem qualquer protecção legal?
Porque não há manifestações contra o uso de crianças como bombas humanas?
Porque houve uma ausência de liderança no apoio às vítimas da ditadura islâmica do Sudão?
Porque é que nunca há qualquer indignação contra os atos de terrorismo cometidos contra Israel?
Porque não há clamor pela esquerda europeia contra o fanatismo islâmico?
Porque não defender o direito de Israel a existir?
Porque confundir apoio à causa Palestina com a defesa do terrorismo palestino?
E, finalmente, a questão de um milhão de dólares: Porque a esquerda na Europa e em todo o mundo obcecado com as duas democracias mais sólidas, os Estados Unidos e Israel, e não com as piores ditaduras do planeta? As duas democracias mais sólidas, que têm sofrido ataques mais sangrentos do terrorismo e que a esquerda não se importa.
E então, o conceito de liberdade. Em cada fórum europeu pró-palestino, ouço os gritos da esquerda com fervor: "Queremos liberdade para o povo!"
Não é verdade. Eles nunca estão preocupados com a liberdade para o povo da Síria, Yémen, Irão, Sudão, por exemplo. Nunca se preocupam quando o Hamas destrói a liberdade dos palestinianos. Essa esquerda só está preocupada com a utilização do conceito de liberdade Palestina como uma arma contra a liberdade de Israel. As consequências resultantes dessas patologias ideológicas é a manipulação da imprensa.
A imprensa internacional causa danos graves ao relatar sobre a questão israelo-palestina. Sobre este assunto não informam, fazem sim propaganda maliciosa.
Ao relatar sobre Israel, a maioria dos jornalistas esquecem-se do código de ética jornalista.
E assim, qualquer ato de Israel à autodefesa torna-se um massacre, e qualquer confronto, o genocídio. Tantas coisas estúpidas que já foram escritas sobre Israel, que não há qualquer acusação, que se possa produzir contra o jornalista.
Ao mesmo tempo, nunca a imprensa discutiu a interferência da Síria e do Irão na propagação da violência contra Israel, a doutrinação das crianças e da corrupção dos palestinianos.
E quando a informação sobre as vítimas, cada vítima Palestina é relatada como tragédia e todas as vítimas israelitas é camuflada, escondida ou relatada com desdém.
E deixem-me acrescentar sobre o tema da esquerda espanhola. Muitos são os exemplos que ilustram o anti-americanismo e sentimentos anti-israelitas que definem a esquerda espanhola. Por exemplo, um dos partidos de esquerda em Espanha expulsou um dos seus membros, por este ter criado um site pró-Israel. Passo a citar o documento de afastamento: "Os nossos amigos são o povo do Irão, da Líbia e da Venezuela, oprimidos pelo imperialismo, e não um estado nazista como Israel".
Um outro exemplo, o socialista de Campozuelos, presidente da Câmara, trocou o dia do Shoah ( homenagem às vítimas do Holocausto), pelo dia Nabka Day, que lamenta a criação do Estado de Israel, mostrando desprezo por seis milhões de judeus europeus assassinados no Holocausto.
Ou na minha cidade natal de Barcelona, onde o município decidiu comemorar o 60º aniversário da criação do Estado de Israel, mas, também promover uma semana de solidariedade para com o povo palestino. Assim, convidou Leila Khaled, uma famosa terrorista dos anos 70 e actual líder da Frente Popular para a Libertação da Palestina, uma organização terrorista assim descrito pela União Europeia, que promove a utilização de bombas contra Israel.
Desta forma politicamente correta de pensar até os discursos do presidente Zapatero foram poluídos por ela. A sua política externa cai dentro da esquerda lunática e em questões do Médio Oriente, é inequivocamente pró-árabe. Posso assegurar-vos que em locais privados, Zapatero culpa Israel pelo conflito no Médio Oriente, e as políticas de Moratinos, ministro dos Negócios Estrangeiros reflectem isso. O facto de Zapatero ter escolhido usar um kafiah no meio do conflito do Líbano, não é coincidência, é um símbolo.
A Espanha sofreu o pior ataque terrorista na Europa, e está na mira de todas as organizações terroristas islâmicas. Como eu escrevi antes, eles matam-nos com celulares conectados a satélites, mas também conectados à Idade Média.
E ainda, a esquerda espanhola é a mais anti-Israel no mundo.
E afirma ser anti-Israel por ser solidária. Esta é a loucura que eu quero denunciar nesta conferência.

Conclusão:
Eu não sou judia. Ideologicamente eu sou de esquerda e jornalista de profissão. Porque não sou anti-Israel, como os meus colegas? Porque, como uma não-judia tenho a responsabilidade histórica de lutar contra o ódio judaico e, actualmente, contra o ódio da sua pátria histórica, Israel. Lutar contra o anti-semitismo não é somente um dever dos judeus, mas também o é dos não-judeus.
Como jornalista é meu dever procurar a verdade além do preconceito, mentiras e manipulações. A verdade sobre Israel não é contada. Como uma pessoa de esquerda que ama o progresso, sou obrigada a defender a liberdade, a cultura, a educação cívica para as crianças, a convivência e as leis que as tábuas da aliança tornaram em princípios universais.
Princípios que o fundamentalismo islâmico sistematicamente destrói. Com isto, quero dizer que, como uma não-judia, jornalista e de esquerda, tenho o dever moral a triplicar para com Israel, porque, se Israel for destruído, a liberdade, a modernidade e a cultura serão destruídas também.

Artigo do Blog Shalom

terça-feira, 25 de outubro de 2011

A fábula da galinha porca capitalista

Uma galinha achou alguns grãos de trigo e disse aos vizinhos:
- Se plantarmos este trigo, teremos pão para comer. Alguém me quer ajudar a plantá-lo?
- Eu não! - disse a vaca.
- Nem eu, tenho mais que fazer! - emendou o pato.
- Eu também não - retorquiu o porco.
- Eu muito menos - completou o bode.
- Então, eu mesma planto - disse a galinha.
E assim o fez. O trigo cresceu alto e amadureceu, com grãos dourados.
- Quem vai me ajudar a colher o trigo? - quis saber a galinha.
- Eu não - disse o pato.
- Não faz parte das minhas funções - disse o porco.
- Não, depois de tantos anos de serviço - exclamou a vaca.
- Eu me arriscaria a perder o seguro-desemprego - disse o bode.
- Então, eu mesma colho - disse a galinha, e colheu o trigo, ela própria.
Finalmente, chegara a hora de preparar o pão.
- Quem me vai ajudar a cozer o pão? - indagou a galinha.
- Eu fugi da escola e nunca aprendi a fazer pão - disse o porco.
- Eu não posso por em risco meu auxílio-doença - continuou o pato.
- Caso só eu ajude, é discriminação - resmungou o bode.
- Só se me pagarem hora extra - exclamou a vaca.
- Então, eu mesma faço - exclamou a pequena galinha. Ela assou cinco pães, e pôs todos numa cesta para que os vizinhos pudessem ver.
De repente, todo mundo queria pão, e exigiu um pedaço. A galinha simplesmente disse:
- Não! Vou comer os cinco pães sozinha.
- Lucros excessivos, sua agiota burguesa! - gritou a vaca.
- Sanguessuga capitalista! - exclamou o pato.
- Eu exijo direitos iguais! - bradou o bode.
O porco grunhiu: - A Paz, o Pão e a Educação são para todos! Direitos do Povo!
Pintaram faixas e cartazes dizendo “Injustiça Social” e marcharam em protesto contra a galinha, gritando palavras de ordem: “Fascista”, “O pão é nosso!”, “País rico é país com pães para todos!”, “Exijo a minha cota de pães!”, “Morte aos padeiros que lucram com a fome!”.
Chamado um fiscal do governo, disse à pobre galinha:
- Você, galinha, não pode ser assim tão egoísta. Você ganhou pão a mais, tem de pagar muito imposto.
- Mas dona Raposa, eu ganhei esse pão com meu próprio trabalho e suor - defendeu-se a galinha. Os outros não quiseram trabalhar! - retorquiu sentida.
- Exatamente - disse o funcionário do governo - essa é a vantagem da livre iniciativa. Qualquer pessoa, numa empresa, pode ganhar o que quiser. Pode trabalhar ou não trabalhar. Mas, de acordo com a nossa moderna legislação, a mais avançada do Mundo, os trabalhadores mais produtivos têm que dividir o produto do trabalho com os que não fazem nada. Além disso, existe a mais-valia, o Imposto de Renda, o IPTU, o IPVA, o IPI, o ICMS, o mensalão, as Organizações NÃO Governamentais que vivem às custas de dinheiro público, etc., etc., que têm de ser pagos para garantir a nossa Saúde, a nossa Educação e a nossa Justiça! Todas elas as melhores do Mundo!
E todos viveram felizes para sempre, inclusive a pequena galinha, que sorriu e cacarejou: "eu estou grata", "eu estou grata".
Mas os vizinhos sempre se perguntavam por que a galinha nunca mais fez um pão.


Retirado do site Vanguarda Popular